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Fanáticos satanistas, seqüestram jovens para usá-las em experiências de clonagem, uma união das ciências ocultas e genéticas, com o objetivo de trazer seu Mestre para o nosso mundo. Mas só há uma porta, uma única mulher capaz de trazer vida a um ser espiritual. Para tê-la e cumprir suas diabólicas profecias, eles não medirão esforços nem terão misericórdia dos que cruzarem seu caminho.

Após o misterioso desaparecimento de sua assistente, Cláudia se envolve na teia de antigos mistérios, onde a única esperança de salvação está em Lucas, um pastor evangélico. Nasce entre eles uma forte atração, um amor que vai além de suas convicções e supera suas crenças, que desafia a ciência e o ocultismo.

Trecho do livro

Campus da UFAL: Novembro de 1987.

Naquela noite o vento e a chuva incomodavam bastante. Lucas esfregou as mãos pelos braços em movimentos rápidos para se aquecer, apressou o passo, devido à chuva e à hora avançada o campus da universidade estava deserto. Na verdade em qualquer noite o campus era assustador. Os espaços dentro da universidade eram divididos em blocos, em volta de cada bloco havia muitas árvores, para os estudantes do diurno era maravilhoso, mas para os estudantes do curso noturno era aterrador, cheio de sombras e vultos. Outro fator que apavorava os alunos era que todo o campus estava cercado por terreno desabitado, sendo os vizinhos mais próximos o complexo penitenciário e algumas favelas.

Lucas sentiu certo alívio, ouviu passos se aproximando. Voltou-se para ver quem se aproximava; a chuva aumentou. Em volta de seu guarda-chuva a água formava uma cortina que dificultava a visão. Continuou a andar, se a pessoa quisesse companhia o chamaria.

O frio aumentou; ele conhecia bem aquele tipo de frio, sua nuca estava arrepiada, como se gelo escorregasse por toda extensão de sua coluna. Como um homem que cresceu no meio evangélico, ele sabia identificar os sinais de perigo que seu corpo lhe enviava. Algo ruim se aproximava dele.

- Senhor Deus e Pai de Jesus Cristo... Lucas orou com um fervor que ele mesmo desconhecia. E ele viu. Eles estavam a sua frente.

Dois homens que se encaravam e giravam um em volta do outro se testando para uma luta. Um vestia um terno cor de chumbo, quase negro e o outro jeans e camiseta de malha azul clara.

Neste momento, os dois tomaram ciência de sua presença, e voltaram seus rostos para ele. Lucas deixou escapar um grito! Aqueles rostos eram como máscaras, sem boca ou nariz e os olhos duas bolas de vidro onde ardiam chamas. A diferença era que o de jeans tinha mais luz no olhar e o outro um brilho opaco. Eles se assustaram ao perceber que ele os via, mas foi apenas uma fração de segundo, o de jeans ergueu uma espada cercada de luz e degolou o outro. A cabeça degolada e caída no calçamento fez um som como riso e falou: - Eu arranjo outro corpo e volto. O mestre o quer. – E o corpo apontou para Lucas.

Tudo sumiu. Apenas a chuva acompanhou o apavorado Lucas até o ponto de ônibus e de lá até sua casa.

Cláudia foi para o estacionamento do hospital Universitário acompanhada de sua assistente. Aquele plantão tinha sido cansativo, faltaram alguns médicos e ela foi obrigada a atender pacientes de outras especialidades. Era pediatra, amava sua profissão. Naquela noite tinham feito três partos, destes, dois foram difíceis, chegou até a pensar que perderia um dos bebês. Agora tudo estava bem, tinha passado o plantão com a situação dos bebês estabilizada.

Tudo o que queria era um banho quente e dormir algumas horas. Cláudia destravou o carro e abriu a porta do lado do motorista. Jogou sua maleta e bolsa no banco traseiro e se acomodou no assento, ligando o carro. Neide que a auxiliou o dia todo, também parecia cansada, e como sua casa era no caminho e seus plantões eram os mesmos, ela a levava em casa. Ainda que nunca saíssem na hora certa. O seu horário era até as sete da noite e devido aos partos já eram quase onze horas.

Cláudia estava um pouco impaciente. Porque Neide não entrava logo? Saíram juntas, pararam ao lado do carro, ela entrou e a outra não. Baixou o vidro da janela do passageiro e chamou a colega. Nada!

Ela devia ter esquecido algo e voltado ao hospital. Aguardou. Buzinou. Neide não deu sinal algum. Saiu do carro, a chuva fina incomodava um pouco. A poucos metros havia um enorme cachorro cinza com um objeto na boca. Cláudia parou perplexa!

O animal estava com uma bolsa na boca. Soltou a bolsa no chão e voltou seus olhos para ela, olhos acesos, não com brilho verde como a maioria dos cães que ela já viu antes, mas vermelho. Ele rosnou e sua boca se repuxou como um sorriso cínico. Cláudia andou de costas até o carro, entrou pela porta do passageiro e a travou. Escorregou para o banco do motorista. Ligou o carro. Tinha que sair dali e pedir ajuda. Na saída do estacionamento havia uma guarita com um vigia. O coração dela batia alucinado. Algo tinha acontecido a Neide, ela não deixaria sua bolsa jogada se tudo estivesse bem. Uma coisa era certa, a partir deste dia estacionaria em frente ao hospital, bem a vista de todos. Parou na guarita e pediu que o vigia lhe acompanhasse, e entrou no hospital pela porta da frente.

Cláudia saiu do hospital às três da madrugada. A polícia foi chamada ao local e não encontraram Neide. Sua bolsa não estava no estacionamento, ninguém ligou para o detalhe do cão. O policial comentou que o animal viu a bolsa no chão e revirou procurando comida. No dia seguinte encontraram um jaleco sujo de sangue no matagal nos fundos do hospital próximo ao campus. O corpo de Neide nunca foi encontrado. Neide se tornou mais uma das muitas pessoas desaparecidas todos os dias sem nenhuma explicação

Cida Lima - A porta - Editora Nossa Livraria - 9-12pág.